Aos
87 anos, os últimos 64 vividos na cidade de São Paulo,
Tomie Ohtake tornou-se a protagonista de uma iniciativa sem precedentes
no Brasil. Com um investimento de R$ 10 milhões, está
sendo construído no bairro de Pinheiros, em São Paulo,
o Instituto Cultural Tomie Ohtake. O complexo é constituído
por dois edifícios. Um, em forma de trapézio invertido
com 6 pavimentos, com frente para a Av. Pedroso de Morais. O outro,
com 28 andares e com acesso pela Av. Faria Lima. Parte do acervo de
Tomie ficará em um salão de 400 metros quadrados. Além
de salas de exposições adequadamente climatizadas para
receber mostras segundo critérios de exigência internacionais,
o Instituto terá um teatro que promete uma acústica impecável
com capacidade para 723 pessoas. E, ainda, biblioteca, loja, restaurante
e estacionamento. Haverá uma sala de projeções
pequena para conferências, um espaço para mostras de fotografias
e uma escola de arte. Ao todo serão 4.000 metros quadrados de
área construída.
O
empreendimento também reflete a integração entre
a artista e seus dois filhos, os arquitetos Ruy e Ricardo, de 62 e 58
anos, respectivamente. Ruy, um dos mais conceituados arquitetos do País,
é o responsável pelo projeto. “O instituto é
a consolidação de nossa confiança na identidade
cultural brasileira, na qual estamos engajadíssimos”, afirma
ele. Para o arquiteto, a iniciativa é também conseqüência
dos almoços de domingo em família, sempre permeados por
discussões sobre arte e cultura.
A
coordenação e a concepção do projeto foram
realizadas por Ricardo, ex-secretário da Cultura do Estado e
atual secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente. Um dos
curadores das mostras do instituto será o ex-diretor do MAM-RJ,
Aguinaldo Farias.
| Hélcio Nagamine |
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O
empresário Victor Siaulys , amigo de Ruy desde os anos 50, quando
estudaram juntos, é o principal responsável pela criação
do instituto. “Queríamos oferecer um presente à
cidade de São Paulo e, ao mesmo tempo, homenagear a família
Ohtake”, diz Siaulys. Ele é um dos donos do Laboratório
Aché, que está bancando a construção e cedeu
o espaço aos Ohtake em regime de comodato, por 30 anos.
Envolvida
com o trabalho em seu ateliê, Tomie não parece nem um pouco
preocupada com os detalhes do empreendimento. “Eu não planejo
nada, só vou obedecendo...”, brinca. “A idéia
de criar espaços para cursos é da Tomie”, comenta
Ricardo, que vive com a mãe numa bela casa de concreto aparente
e vidro no bairro do Brooklin, projetada por Ruy no início dos
anos 70.
Tomie
radicou-se no País por acaso. Nascida em Kyoto, no Japão,
em 1913, veio para o Brasil em 1936, com o irmão Teinosuke, aos
23 anos, para visitar outro irmão, Masutaro, que vivia em São
Paulo. Com o recrudescimento da guerra do Japão com a China,
Tomie não teve como voltar. Pouco depois, se casou com o engenheiro
agrônomo japonês Ishio Ohtake. Durante 15 anos, Tomie dedicou-se
apenas à família. Só começou a pintar em
1952, mas logo sua arte foi tomando conta do sobrado da família
na Mooca, tradicional bairro de imigrantes, principalmente italianos.
No
começo, a artista plástica reproduzia em telas de pequeno
formato as casas da vizinhança. Em pouco mais de dois anos, passou
do figurativo ao abstrato. À época, não faltaram
elogios à maestria com que lidava com a luz, mas a primeira pessoa
a valorizar profissionalmente seu trabalho foi o médico Osório
César, casado com a pintora Tarsila do Amaral. Em 1957, Tomie
fez sua primeira exposição individual, no Museu de Arte
Moderna (MAM), em São Paulo. Daí em diante, não
parou mais. Tomie Ohtake já realizou dezenas de exposições
individuais em São Paulo, Rio de Janeiro, Nova Iork, Tóquio,
Milão, entre outras cidades. Na Bienal de São Paulo conquistou
o Prêmio Itamaraty, entre muitos outros. O Masp fez uma grande
mostra retrospectiva de seu trabalho com 150 obras, em 1988 e há
um livro editado com suas obras, publicado em 1983, com 250 reproduções
a cores, prefácio de Pietro Maria Bardi e texto de Casimiro Xavier
de Mendonça. Hoje, uma tela de 1m x 1m, de tamanho modesto no
conjunto da sua obra, vale US$ 24 mil.
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No
mundo das cores e das formas, Tomie é impar. Ao explicar sua
arte, é concisa. “Tudo vem de dentro.” Empolga-se,
porém, ao falar da cidade na qual vive desde 1936. “Falam
da violência, do trânsito, mas eu amo São Paulo”,
declara. “Sempre tem muito movimento, tem construção
em todo lugar.”
O
que mais emociona nela é a sua vitalidade, a disposição
para realizar. Ultimamente, porém, Tomie Ohtake começou
a fazer referências à morte. “Sinto que tenho alguma
coisa … coração, pulmão, pressão,
não sei…”, divaga a artista, que completou 88 anos
em novembro. “Eu gosto de trabalhar. Naturalmente, quero trabalhar
até morrer. Só não quero ficar doente nem um pouquinho”,
diz. “Se eu tiver de morrer, que seja de repente...”
fontes: www.terra.com.br
www.estadao.com.br
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