Rosa
Grena Kliass
"O mercado de paisagismo só será forte quando os arquitetos fizerem
os projetos"

Rosa
Grena Kliass é paulista de São Roque, formada
pela FAU-USP em 1955.
Presidente da Abap, é autora de vários trabalhos publicados no país e no exterior,
entre eles o livro Parques urbanos de São Paulo, tema de sua dissertação de
mestrado, defendida em 1989, também na FAU-USP.
É co-autora do documento Qualidade Ambiental dentro
do plano diretor da cidade de São Paulo, inventário da vegetação significativa
da cidade de São Paulo, trabalho publicado em 1988, pela Secretaria Estadual
do Planejamento
A senhora atua na
direção de duas entidades profissionais, uma brasileira, outra internacional.
Isso não impede o desenvolvimento de seu trabalho?
Nos
dois últimos anos, voltei à presidência da Abap e assumi a vice-presidência
da Região Ocidental da Ifla. As duas entidades tomam grande parte do meu tempo,
mas são coisas que faço de coração. E como as duas gestões se encerram este
ano, poderei atuar mais na profissão. No momento, tenho um projeto bem interessante
em Macapá e outro em São Paulo. Estou retomando o detalhamento do projeto
de paisagismo do Carandiru, como resultado do concurso ganho pelo escritório
Aflalo & Gasperini para urbanização da área ocupada pela Casa de Detenção.
E o projeto em Macapá?
Tem
sido um trabalho apaixonante. Trata-se de um parque em torno de uma fortaleza
do século 18, com 120.000 m2, no centro da cidade, às margens do rio Amazonas.
Ela foi a última erguida pelos portugueses e, como nunca foi utilizada, permaneceu
bastante íntegra. Recentemente, foi reciclada e abriga museu e centro cultural.
No ano passado, fui convidada a fazer o tratamento paisagístico de toda a
área do parque e já dei início ao trabalho.
Como a senhora vê
a situação do paisagismo no Brasil?
Nos
últimos anos, os grandes concursos nacionais de arquitetura têm se referido,
na verdade, à arquitetura paisagística - por exemplo, os do vale do Anhangabaú,
em São Paulo, do parque do Aeroclube de Salvador, do parque Ecológico de Brasília.
A área de trabalho é grande e inclui projetos de jardins para residências,
de paisagismo urbano, além de estudos de impacto ambiental ou de impacto de
vizinhança. Em São Paulo, os estudos de impacto ambiental sempre incluem o
projeto de paisagismo como "medida compensatória", quando, na verdade, ele
deveria ser obrigatório para todas as obras públicas ou urbanas. De qualquer
forma, quando se faz um estudo de impacto ambiental a atenção está voltada,
naturalmente, para a paisagem. No Rio, por exemplo, Fernando Chacel, que na
minha opinião é o maior entre os melhores arquitetos paisagistas do país,
está desenvolvendo um trabalho muito interessante de recomposição de áreas
de restinga, baseado na legislação ambiental. Todo empresário que constrói
na Barra da Tijuca é obrigado, por lei, a oferecer uma recompensa à cidade
equivalente à área construída. Com isso, Chacel está projetando os vários
quilômetros do parque e cada um dos empreendedores da Barra fica responsável
pela execução e manutenção de uma parte.
Há equilíbrio entre oferta e demanda
de trabalho na área de arquitetura paisagística?
O
problema é que a profissão de arquiteto paisagista ainda não é regulamentada,
e não só no Brasil, mas em todo o mundo. A Organização Internacional do Trabalho
reconhece como independentes as profissões de arquiteto, urbanista e arquiteto
paisagista. E isso foi reconhecido nos EUA, Alemanha, Inglaterra, Suíça, Áustria,
países nórdicos, Japão, Israel e, mais recentemente, na Itália. Esses países
têm faculdades que formam arquitetos paisagistas, e há também os cursos de
pós-graduação para diplomados em outra faculdade.
Como se desenvolveu o paisagismo
no Brasil?
Uma
figura está bem acima de todos - a de Roberto Burle Max. Não tinha diploma,
nem de agrônomo nem de arquiteto, mas foi o maior arquiteto paisagista do
século, no mundo.
Os profissionais que exercem a arquitetura paisagística
de maior representatividade no Brasil vêm, prioritariamente, da arquitetura.
Isso porque Burle Marx criou, no Rio, essa tradição, sempre empregando arquitetos.
Daí pressupõe-se que ele achava ser o arquiteto o profissional apto a desenvolver
seus projetos.
A prática
profissional mostra que é mais fácil transformar em paisagista um arquiteto
do que outro profissional
E em São Paulo?
O
núcleo que gerou o paisagismo paulista foi a FAU-USP. A escola foi criada
pelo professor Anhaia Melo, que era urbanista. Para ele, a cadeira de paisagismo
era imprescindível. No 2º ano da FAU, Anhaia Melo contratou um norte-americano
de origem portuguesa, Roberto Coelho Cardoso, que vinha de Berkeley e tinha
trabalhado com grandes arquitetos paisagistas americanos. Por sorte, chegou
a um campo fértil, pois todos nós conhecíamos o trabalho de Burle Marx e tínhamos
necessidade de um indutor, de alguém que nos empurrasse. Nos primeiros anos,
não se formou ninguém que abraçasse o paisagismo.
Eu e Miranda Magnoli, que fomos colegas de turma, somos
os primeiros "produtos" de Coelho Cardoso. Sempre digo que a arquitetura paisagística
brasileira contemporânea surgiu graças a dois Robertos de formação bem diferentes.
Um trouxe para o Brasil a experiência californiana, muito ligada à cidade.
O outro tinha como características principais o desenho, que era importantíssimo,
e a vegetação nativa. Da mistura dessas duas concepções saiu a arquitetura
paisagística brasileira.
A senhora sempre atuou na área do
paisagismo?
Quando
saí da faculdade, em 1955, exerci a profissão de arquiteto, mas fiz meu último
trabalho na área em 1968. Já no Rio, como Burle Marx havia aberto o caminho
para o paisagismo, acredito que Chacel - que também é da minha geração - sempre
trabalhou com paisagismo. Os que se formaram na FAU-USP depois de nós já saíram
fazendo arquitetura paisagística.
E quanto aos não-arquitetos que
atuam no setor?
Há
um pouco de mal-entendido nessa página profissional, porque se pergunta: Burle
Marx não executava a profissão sem ser arquiteto? Sim, executava. Ele não
era viveirista? Era, porque se não tivesse viveiro próprio nunca teria feito
suas obras. Mas quando ele começou não existia mercado organizado. Burle Max
teve de fazer tudo. Hoje não se justifica o arquiteto paisagista ter um viveiro.
E o mercado de paisagismo só vai ser realmente forte quando tivermos esse
sistema bem definido: grandes e competentes viveiristas, os executores de
jardins e os arquitetos que fazem os projetos. Não se deve misturar as coisas.
O que nos falta é fortalecer uma
corporação
que se interesse pela real qualidade do produto, frente à sociedade brasileira
Como a senhora vê a existência das
duas associações de profissionais que atuam no paisagismo, a de arquitetos
paisagistas e a de não-arquitetos?
A Associação
Nacional de Paisagistas seria muito útil para nós, porque ela reúne os profissionais que não congregamos,
os viveiristas e executores de jardins. O problema é de mercado: eles não
assumem que somos nós que devemos fazer os projetos e eles devem cuidar da
produção e execução, que é um trabalho importantíssimo.
Não há
a possibilidade de o número de paisagistas começar a ser maior
que o de arquitetos paisagistas, e a prática levar à acomodação?
É
contra isso que luto desde 1976 na Abap. Não para impedir que as pessoas façam
paisagismo, mas para qualificá-las. Quando se forma, o arquiteto ainda não
está apto a fazer paisagismo, pois não tem conhecimento de vegetação, de solo,
de clima. A prática profissional mostra que é mais fácil transformar em paisagista
um arquiteto do que outro profissional, porque ele já está na linha do trabalho
com o espaço. Mas não tenho dúvidas de que uma pós-graduação pode transformar
outro profissional em paisagista.
De que forma essa
especialidade é tratada nas escolas de arquitetura?
Nos
últimos dois anos, a cadeira de arquitetura paisagística passou a ser obrigatória
em todos os cursos de arquitetura. A Abap fez o 18º Encontro de Professores
de Paisagismo em Escolas de Arquitetura em 1982, em Curitiba. Fui a criadora
do Encontro Nacional de Professores de Paisagismo nas Escolas de Arquitetura.
O primeiro foi na FAU-USP, com professores de 18 escolas.
No momento, estamos pleiteando com a Unesco apoio para um programa de formação
de professores de paisagismo, com ajuda da
FAU-USP. O programa seria realizado em quatro módulos, nos meses de férias.
A Abap já tomou conhecimento
dos parques anunciados pela Prefeitura de São Paulo, a serem executados ainda
nesta gestão?
E
eles já têm projetos? Não, não estou sabendo.
Esse fato de não
ser informada a incomoda?
Incomoda,
claro, mas não é nada pessoal, é que a população sai perdendo. O secretário
não tem obrigação de apresentar projetos à Abap, mas o que gostaríamos era
de ter a presença de arquitetos paisagistas, reconhecidamente competentes,
na Secretaria de Planejamento.
Isso é válido também para outras áreas da administração. Estamos tentando
atuar há mais de um ano junto à Secretaria Municipal de Meio Ambiente de São
Paulo, mas até agora não conseguimos...
O plano diretor
que o secretário Wilheim apresentará à Câmara Municipal aborda o tratamento
paisagístico da cidade. A Abap participou dos estudos a esse respeito?
Não.
Mas houve um período em que o arquiteto paisagista contribuiu muito para o
planejamento urbano nas cidades brasileiras. Na década de 1970, só as cidades
com plano diretor poderiam obter recursos para executar suas obras. Então,
proliferou plano diretor por todo o país, foi uma febre. Em 1976, Jorge Wilheim
fez o Plano Urbanístico de Curitiba, que todo mundo pensa que é do (Jaime)
Lerner, e me convidou para fazer o planejamento do paisagismo, em nível urbano.
Depois, fiz o planejamento das áreas verdes de Salvador, junto do plano diretor
da cidade, elaborado pela própria prefeitura.
Na
gestão de Mário Covas na prefeitura de São Paulo a senhora voltou a trabalhar
com Wilheim...
Nessa
gestão, Wilheim foi secretário e eu fui diretora de Planejamento. Na ocasião,
eu tinha dois enfoques específicos: a descentralização administrativa do planejamento
e a inserção da qualidade ambiental nessa pasta. Durante os três anos na prefeitura,
fizemos planos diretores para as diversas regiões administrativas da cidade
e, para cada uma delas, foi contratado um escritório de arquitetura que desenvolveu
o plano. Foram introduzidos na Secretaria de Planejamento critérios paisagísticos
e executados trabalhos importantes. Por exemplo, o IPT - Instituto de Pesquisas
Tecnológicas foi contratado para traçar a primeira carta de riscos do solo
da cidade, pois a administração precisava saber onde não construir ou como
construir em certas áreas. Para o problema das enchentes, foi feito estudo
do comprometimento dos córregos; e ainda, pela seção de Climatologia da USP,
estudo da qualidade do ar. Na verdade, fez-se, na época, a primeira carta
das linhas de poluição da cidade.
A entrada
de escritórios estrangeiros preocupa?
Até
seria saudável que viessem os bons escritórios - um ou outro projeto que venha
de fora não pesa muito para nós. O preocupante é a criação de um mercado real.
Nosso empresariado acha que o que vem de fora é sempre bom, e isso é maléfico
não só para a sociedade, mas também para o mercado. O que nos falta é fortalecer
uma corporação que se interesse pela real qualidade do produto, frente à sociedade.
Com isso, o fortalecimento da figura do arquiteto dentro da sociedade seria
mais fácil.
Nos
novos parques europeus, vê-se o surgimento de novo tipo de paisagismo, com
desenho mais contemporâneo, não tão moderno quanto o de Burle Marx. Como a
senhora vê isso?
Existem
várias linhas de arquitetura paisagística contemporânea no mundo. Peter Walker,
por exemplo, um dos mais badalados arquitetos paisagistas norte-americanos,
aborda o projeto paisagístico como projeto de arte, por isso falam que ele
é minimalista. Outros fazem esculturas com a terra. A linha jardim em movimento
chega ao extremo de propor, para os locais onde não há mais vegetação, jogar
as sementes livremente e só depois que as plantas nascem é que se desenha
o jardim. Mas o desenho do paisagismo contemporâneo tem ligação com o desenvolvimento
urbano e com a re-qualificação dos espaços. Prevalecem duas orientações: a
naturalística, que vem da preservação do meio ambiente, da aplicação de plantas
nativas; e a de ligação do jardim com a obra de arte. Mas as obras de Burle
Marx continham aspectos dessas duas linhas, bem resolvidos, sem conflito.
Observação da equipe construtek: por
se tratar de entrevista, optamos por respeitar na íntegra a matéria.
Texto
a partir de reportagem
de Éride Moura, Fernando Serapião e Adilson Melendez
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 266 Abril 2001
Fonte: www.arcoweb.com.br
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