Existe
uma maneira de tornar as ruas de nossas cidades verdes como a floresta
amazônica. Quase todos os aspectos de um ambiente construído,
de pontes a fábricas a blocos de edifícios, e de estradas
a muros de arrimo, poderiam ser transformados em estruturas que acumulam
dióxido de carbono -o principal gás responsável
pelo efeito estufa e o aquecimento global. Tudo que precisaríamos
mudar é a maneira pela qual produzimos cimento.
John Harrison,
especialista em tecnologia de Hobart, na Tasmânia (Austrália),
calcula que seu cimento alternativo, baseado em carbonato de magnésio
em lugar de carbonato de cálcio, seja capaz de reduzir o ritmo
de alteração climática sem sacrificar o estilo
de vida moderno. Trata-se de uma alegação ambiciosa, e
Harrison está decidido a tentar convencer o setor de construção
a adotar suas idéias.
Ele propõe
substituir o cimento Portland por uma substância que ele chama
de "ecocimento". Esse material a base de magnésio,
diz, "pode ser mais barato de fabricar do que o cimento Portland,
mais durável e além disso seria também capaz de
acumular CO2".
Nosso mundo
moderno é construído em grande parte com cimento Portland,
um material inventado quase 180 anos atrás por um pedreiro do
Yorkshire chamado Joseph Aspdin. Em 1824, ele obteve uma patente para
"um aperfeiçoamento nos modos de produção
de pedra artificial", que envolvia o cozimento de cal e argila
em um forno industrial, e a moagem do clínquer resultante na
forma de um pó fino composto basicamente por silicatos de cálcio,
a ser posteriormente misturado com água. A mistura deflagra uma
complexa reação química que forma cristais de hidrato
de silicato de cálcio, por exemplo, o que endurece a mistura.
John
Harrison com um bloco de cimento ecológico
O
século XIX era um período em que as grandes cidades do
Reino Unido estavam permanentemente em construção, e muitos
outros inventores trabalhavam na criação de pedras artificiais.
Mas Aspdin resolveu o problema ao sujeitar os ingredientes às
temperaturas extremamente elevadas do forno de um fabricante de vidros
em sua cidade natal, Hunslet. Ele batizou seu produto de cimento Portland
em homenagem à pedra natural mais usada em construção
na sua era, que vinha da ilha de Portland, no condado de Dorset.
O cimento
Portland provou-se barato de fabricar e imensamente versátil,
e não demorou muito para que se tornasse o ingrediente básico
tanto do concreto quanto da argamassa, os materiais básicos de
construção de todas as cidades do planeta. A cada ano,
cerca de 1,7 bilhão de toneladas de cimento Portland são
produzidas no mundo, um espantoso total de cerca de 250 quilos por habitante
do planeta.
Mas existe
um problema. A produção de cimento Portland gera um volume
imenso de dióxido de carbono. Isso se deve em parte à
grande quantidade de energia necessária para elevar as temperaturas
dentro dos fornos de cimento aos 1.450°C necessários tostar
o carbonato de cálcio (oriundo do giz ou do calcário),
e também ao fato de que o processo de conversão em si
gera dióxido de carbono.
Para cada
tonelada de cimento Portland que emerge dos fornos, cerca de uma tonelada
de CO2 escapa para a atmosfera. A produção de cimento
é responsável por cerca de 7% das emissões artificiais
totais de dióxido de carbono no mundo, um número que sobe
para além dos 10% em países que se vêm desenvolvendo
rapidamente, como a China, que atualmente produz uma em cada três
toneladas de cimento empregadas no mundo.
Se temos
por objetivo controlar o aquecimento global, não podemos permitir
que essa situação persista. E, de acordo com Harrison,
não é necessário que isso aconteça. A solução
que ele propõe e que a pequena empresa que ele fundou, a TecEco,
está levando ao mercado, envolve substituir o carbonato de cálcio,
nos fornos de produção de cimento, por carbonato de magnésio
-uma rocha que ocorre com freqüência elevada por conta própria,
na forma do mineral magnesita, ou em misturas com o carbonato de cálcio,
como a dolomita.
Os cimentos
com base em magnésio não são novidades. Foram desenvolvidos
inicialmente em 1867, pelo francês Stanislas Sorel, que produziu
cimento com uma combinação de óxido de magnésio
e cloreto de magnésio. No entanto, as misturas que ele criou
não resistiam a uma exposição longa à água
sem perder a força. Se um bloco do material fosse instalado em
Manchester ou Seattle, sob a garoa e chuva constantes, ele um dia desabaria.
Os ecocimentos
de Harrison, com base em carbonato de magnésio, por outro lado,
têm estrutura química bastante similar à do cimento
Portland, e são muito mais robustos do que o material criado
por Sorel. E, de acordo com Harrison, o material que ele propõe
oferece diversas vantagens ambientais. Para começar, os fornos
de cimento não precisam funcionar a temperaturas tão elevadas.
O carbonato de magnésio se converte facilmente em óxido
de magnésio a temperaturas de cerca de 650°C. Isso significa
que as emissões de dióxido de carbono relacionadas à
energia necessária para acionar os fornos são reduzidas
mais ou menos à metade.
O processo
de cozimento para a produção dos ecocimentos produz mais
CO2. Mas, durante a aplicação e o endurecimento do cimento,
um processo conhecido como carbonação reabsorve do ar
a maior parte desse excedente.
Blocos
de ecocimento
Quando
o concreto convencional produzido com cimento Portland está fresco,
a água na mistura também absorve dióxido de carbono
da atmosfera, lentamente. A solução formada reage, a seguir,
com os componentes que contêm cálcio alcalino contidos
na matriz de concreto para depositar cristais de carbonato de cálcio,
os quais reduzem a força do concreto.
Mas a carbonação
é mais rápida e mais eficiente no ecocimento de Harrison.
Os cristais de carbonato de magnésio são mais fortes do
que os de carbonato de cálcio, de modo que eles aumentam a força
do material.
Se o ecocimento
for usado para produzir material poroso como blocos de concretos, todo
o material terminará funcionando como pólo de carbonação,
diz Harrison. Assim, uma tonelada de concreto terminaria por absorver
até 400 quilos de CO2, diz ele, o que equivale a cerca de 100
quilos de carbono. "As oportunidades de uso de processos de carbonação
para seqüestrar carbono do ar são simplesmente imensas",
diz Harrison. "Seriam precisos alguns séculos, ou até
mesmo milênios, para que os cimentos comuns absorvam tanto quanto
os ecocimentos são capazes de absorver em apenas alguns meses".
Isso significa
que os ecocimentos carbonando silenciosamente em um edifício
de escritórios estariam desempenhando mais ou menos a mesma função
atmosférica do que uma árvore em crescimento. Se os ecocimentos
conquistarem espaço nas nossas cidades, reduziriam imediatamente
a contribuição da indústria do cimento para o aquecimento
global, reabsorvendo boa parte do dióxido de carbono emitido
durante sua fabricação. Por meio da substituição
direta do cimento Portland por seu ecocimento, Harrison estima que seria
possível eliminar mais de um bilhão de toneladas de CO2
ao ano.
A idéia
é "pioneira no mundo", diz Fred Glasser, do Departamento
de Química da Universidade de Aberdeen, uma das principais autoridades
mundiais em tecnologia do cimento. E o ecoconcreto pode provar de outra
maneira sua condição de elemento favorável quanto
ao efeito estufa. O material tem imensa possibilidade de incorporação
de toda espécie de resíduo, incluindo resíduos
orgânicos a base de carbono que de outra maneira apodreceriam
ou seriam queimados, liberando CO2 na atmosfera.
Acrescentar
resíduos inertes desse tipo ao cimento durante sua fabricação
é um processo rotineiro da indústria. Mas o cimento Portland
tem limites estritos para essa mistura. Porque o cimento é alcalino,
as misturas podem reagir com o agregado e quebrar o concreto ou torná-lo
frágil, o que pode causar falhas estruturais. "Os cimentos
de magnésio são muito menos alcalinos, e os problemas
potenciais são muito menores", diz Glasser, que acredita
que essa possa ser a chave para seu uso generalizado no futuro.
Resíduos orgânicos, de cascas de arroz a serragem, plásticos
e borracha, podem ser incorporados como material de adensamento ao cimento
de magnésio sem que este perca força de modo significativo,
diz Harrison, o que transformaria o cimento usado em edifícios,
pontes e assim por diante em um depósito permanente de carbono.
"Fizemos tijolos compostos por mais de 90% de cinza", diz
ele. "Podemos, provavelmente, incorporar de três a quatro
vezes mais resíduos ao nosso cimento do que no caso do cimento
Portland". Isso reduziria imensamente o volume de cimento necessário,
para começar.

Fabricação
de cimento Portland exige grandes quantidades de energia
Os cimentos
com base em magnésio talvez não atendam a todos os requisitos,
admite Harrison. Talvez não seja adequado substituir integralmente
o cimento Portland usado nos pilares de pontes, digamos. Mas Harrison
calcula que os cimentos de magnésio poderiam substituir 80% do
cimento Portland. Isso não sairia barato. As fontes primárias
de carbonato de magnésio, como a magnesita e a dolomita, têm
custo de mineração superior ao carbonato de cálcio.
Mas o preço cairia se levarmos em conta a economia de escala,
diz Glasser.
Harrison
já iniciou a produção. Vendeu seus primeiros tijolos
de ecocimento para um projeto comercial de construção
em maio deste ano. Mas ele teme que os custos de manutenção
de suas patentes o forcem a sair do negócio antes que este ganhe
ímpeto. Associações industriais contactadas pela
"New Scientist" não tinham informações
sobre o ecocimento de Harrison, e continuam a acreditar que as fórmulas
baseadas em magnésio têm baixa confiabilidade.
O principal
problema, diz Glasser, é que "o setor de materiais de construção
é imensamente conservador". Prefere aquilo que conhece -o
cimento Portland. Os engenheiros estão familiarizados com as
propriedades mecânicas do material. E, evidentemente, o cimento
Portland é barato. Talvez gaste energia como se não houvesse
amanhã, mas US$ 2 em geral compram mais cimento do que uma pessoa
consegue carregar sozinha para fora de uma loja de materiais para construção.
"O mercado do cimento Portland é tão vasto que é
difícil ver o cimento de magnésio ganhando muito terreno
ao longo dos próximos 10 anos", diz Glasser. Mas talvez,
à medida que o mundo tenta descobrir novas maneiras de reduzir
suas emissões de CO2, o ecocimento venha a conquistar o mercado.
Nossa queima
de combustíveis fósseis vem liberando dióxido de
carbono na atmosfera a um ritmo que a vegetação já
não consegue absorver. A maneira lógica de escapar ao
problema é acelerar a formação de carbonato com
rochas artificiais. E que maneira melhor de fazê-lo, diz Harrison,
que o cimento?
Fred Pierce
Tradução: Paulo Migliacci
Fonte: www.newscientist.com
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