
Engenheiro Ênio Padilha
Arquitetos
e Engenheiros vendem uma coisa que não é um produto final.
É sempre um insumo incorporado a uma obra, um equipamento, um
processo produtivo ou outra forma qualquer de produto final;
Não é um produto de consumo de massa. Portanto, não
pode usufruir os benefícios da imensa quantidade de técnicas
e recursos de marketing que existem para produtos de massa;
Não é um produto fácil de ser compreendido pelo
cliente. A maioria dos clientes não sabe comprar serviços
de Engenharia e de Arquitetura, reduzindo a avaliação
do produto à simples comparação de preços;
E, principalmente, não é um produto que provoque, no cliente,
nenhum prazer imediato de consumo. Os clientes não gostam, não
se entusiasmam nem sentem prazer algum na compra desses serviços;
Essas são as premissas introdutórias do meu curso de “Como
Negociar e Vender Serviços de Engenharia e de Arquitetura”.
Um pouco assustador, eu reconheço, mas trata-se da mais pura
verdade. Verdade, aliás, que precisa ser entendida e reconhecida
pelos profissionais para que o enfrentamento da questão se dê
com um mínimo de chances de sucesso;
Produzir (e negociar) serviços de Engenharia e Arquitetura é
um bocado mais complicado do que produzir e negociar mercadorias. Sabemos
disso. Ou melhor, percebemos isso, a partir das nossas experiências
do dia-a-dia profissional. Muitas vezes, no entanto, não conseguimos
entender o “porquê”.
Por
que é tão complicado vender serviços de Arquitetura
e de Engenharia ?
A
resposta está no fato de que, em geral, Serviços são
produtos muito diferentes de Mercadorias. Serviços de Engenharia
e Arquitetura (em particular) são ainda mais diferentes (e complicados).
As diferenças (e complicações) estão nas
características que diferenciam os Serviços das Mercadorias.
1.
Intangibilidade. Serviços não podem ser vistos, tocados...
enfim, experimentados, antes de serem comprados, o que demanda investimentos
e cuidados com a credibilidade e a reputação profissional;
2. Inseparabilidade. Serviços são produzidos com a participação
ativa de quem produz e de quem consome, gerando demanda de habilidades
de relacionamento;
3. Variabilidade. Por envolver pessoas diretamente relacionadas, nos
dois lados do “balcão”, é muito difícil
obter repetibilidade. Daí a grande dificuldade para obter produtividade
e, por decorrência, lucratividade;
4. Inarmazenabilidade. Serviços não podem ser produzidos
e guardados em um depósito, para comercialização
posterior. Só se pode produzir o que já foi comprado;
5. Improtegibilidade. Ao contrário das mercadorias, onde as leis
de registros e patentes sempre se aplicam, os serviços quase
nunca podem ser protegidos contra cópias de concorrentes;
6. Precificação Diferenciada. Precificar serviços
é complicado em virtude de que os fatores psicológicos
são inseridos no processo com um grau de importância muito
grande.As características acima diferenciam os serviços
(qualquer serviço) das mercadorias. Porém, engenheiros
e arquitetos, além dessas 6 características diferenciais
(e, é preciso repetir, complicadoras) têm ainda pelo menos
outras quatro preocupações. Outras quatro diferenças
adicionais em seus produtos (serviços de Engenharia e Arquitetura).
7.
Serviços de Engenharia e Arquitetura são Produtos de Consumo
Restrito. Serviços de Engenharia e Arquitetura não são
comprados ou consumidos por muitas pessoas, muitas vezes na vida. Por
melhor que seja um profissional, por mais satisfeitos que fiquem os
seus clientes, é sempre pouco provável que existam compras
ou consumos sucessivos. Isso não dispensa a preocupação
com a satisfação dos seus clientes (que poderão
influenciar a decisão de futuros contratantes) mas, em última
análise o profissional sempre terá que conquistar novos
clientes, o que, em certa medida, dificulta a estabilidade comercial.
Além disso, o fato de o produto não ser “de consumo
de massa” torna inútil todos os principais recursos de
comunicação com o mercado (mídia aberta, recursos
de promoção de vendas, etc) disponíveis para os
empresários que trabalham com mercadorias;
8. Serviços de Engenharia e Arquitetura são Produtos com
Alta Componente Intelectual Agregada. Os serviços de Engenharia
e Arquitetura são, em última análise, INFORMAÇÃO
ORGANIZADA. Obter, processar e produzir informações depende
de um treinamento intelectual que é obtido através de
muitos anos de estudos profundos. A maioria das pessoas, cerca de 99,5
% da população (atenção: isto não
é um chute. É uma estimativa muito realista!) não
faz a menor idéia de como funciona a cabeça de um engenheiro
ou de um arquiteto.
Por
isso muitos engenheiros e arquitetos reclamam: “o cliente não
sabe valorizar o meu trabalho”.
Evidente que não! As pessoas valorizam o que conhecem. Dão
sempre mais valor ao conhecimento compartilhado (uma música faz
mais sucesso não por ser a mais bem feita ou mais difícil
de ser executada. Pelo contrário: quanto mais fácil de
ser cantada e executada por qualquer um, mais sucesso ela fará).
É preciso dar atenção ao nível de percepção
que o cliente tem do produto. No mercado, a coisa não é
o que é. É aquilo que é percebido. Desenvolver
habilidades de comunicação (falar, ouvir, ler, escrever...)
pode ser (e geralmente é) um fator determinante para o sucesso
profissional.
9. Serviço de Engenharia e Arquitetura Não é Produto
Final. Ninguém compra um projeto de Engenharia ou de Arquitetura
para colocar numa moldura e pendurar numa parede. Ninguém contrata
serviços de Engenharia para se divertir ou para obter qualquer
forma de satisfação imediata. O serviço de Arquitetura
ou de Engenharia é sempre incorporado a um processo em andamento,
que vai resultar no produto final, que será outra coisa. Quando
o cliente contrata um engenheiro ou um arquiteto, é nessa OUTRA
COISA que ele está pensando. E é também, para essa
“outra coisa” que o profissional deve apontar, durante a
negociação), pois...
10. Os clientes não gostam da experiência de comprar serviços
de Engenharia ou de Arquitetura. Por mais chocante ou desagradável
que esta afirmação possa ser, ela é verdadeira.
Pergunte a qualquer pessoa que tenha contratado um arquiteto ou um engenheiro.A
experiência de comprar um carro, um eletrodoméstico, uma
jóia, um apartamento ou uma roupa nova é, geralmente,
uma experiência prazerosa. Durante a negociação
o cliente está diante da perspectiva de uma satisfação
que virá imediatamente após a compra. Mesmo a (dolorosa)
experiência de comprar o serviço de um dentista está
ligada à perspectiva de um prazer imediato (o alívio de
uma dor ou a correção de um problema estético).
O processo de compra, para a maioria dos produtos (seja mercadoria ou
serviço) está vinculado, direta ou indiretamente, a alguma
forma de benefícios e satisfação imediata para
o cliente.
Comprar
serviços de Arquitetura ou de Engenharia, no entanto, não
está ligado a nenhum prazer imediato. A realização
do cliente, a satisfação, os benefícios e, em última
análise, o prazer, estão ligados ao fim do processo: a
conclusão da obra de construção, o equipamento,
o funcionamento de um processo...
Sendo
assim, durante a negociação e venda de serviços
de Arquitetura e Engenharia, não podemos contar com esse importantíssimo
recurso natural das negociações que é a exploração
da ansiedade ou desejo do cliente pela obtenção desse
prazer imediato.
O
resultado do serviço do engenheiro ou do arquiteto só
aparece muito tempo depois e, freqüentemente, passa despercebido,
pois está “misturado” com a influência de dezenas
de outros fatores.
Esta
é uma condição para a qual o profissional precisa
estar atento, pois é um obstáculo que precisa ser transposto.
Quando
está negociando com um arquiteto ou um engenheiro o cliente se
sente, de alguma forma, angustiado, exatamente pela falta dessa motivação
do resultado imediato. Ele tem a sensação de estar tendo
uma “despesa” e não a de estar fazendo um INVESTIMENTO.
É
preciso encontrar maneiras de fazer o cliente sentir a perspectiva de
resultados. Fazer o cliente perceber que o serviço que está
sendo vendido faz parte (decisiva) da construção do resultado
pretendido pelo cliente, ainda que isso não seja tão evidenteDurante
a negociação o profissional deve falar menos do serviço
que está sendo oferecido e mais (muito mais) do produto final
com o qual o cliente está sonhando (e, portanto, está
realmente preocupado).O profissional precisa saber fazer estimativas
dos benefícios diretos do seu serviço ao produto final.
Precisa saber quanto de valor o seu trabalho agrega ao produto final.
Tudo
isso, tanto quanto possível, quantificados e associados a valores
financeiros.
E isso é apenas uma das preocupações que o profissional
precisa ter, durante o processo de negociação e venda
de seus serviços.Prestar serviços de Engenharia e Arquitetura,
além dos conhecimentos técnicos, requer ainda habilidades
e conhecimentos de gerenciamento e de mercado, para lidar com todas
as dificuldades decorrentes dessas características que acabamos
de ver.
É
preciso muito mais do que conhecimentos científicos e técnicos
para fazer da Engenharia e da Arquitetura um negócio lucrativo
e, portanto, economicamente viável.
Fonte: www.eniopadilha.com.br
Engenheiro, Escritor e Palestrante
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