
Mais
um protótipo construído com recursos do Programa de Tecnologia
de Habitação (Habitare) está sendo finalizado para
demonstrar tecnologias sustentáveis na habitação
popular. Localizada no campus do Vale, na Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, a casa de 46 metros quadrados
(dois quartos, sala, cozinha e banheiro) foi planejada levando em conta
conceitos de sustentabilidade e padrão de qualidade muito superiores
ao normalmente encontrados em moradias populares. A coordenação
do projeto é
do professor Miguel Aloysio Sattler, integrante do Núcleo Orientado
à Inovação na Edificação (Norie),
que desde 1993 vem pesquisando a área de edificações
e comunidades sustentáveis. O Norie está vinculado ao
Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da
UFRGS.
A
pequena casa está permitindo o estudo, o projeto e a aplicação
de técnicas construtivas em que as condições ecológicas
e bioclimáticas são prioridade. Não deixa de considerar,
no entanto, questões de custo. Em termos de arquitetura bioclimática,
por exemplo, a construção aproveita estudos de orientação
solar e dos ventos para beneficiar o conforto térmico. A parte
externa da casa conta com pergolados, que são estruturas de madeira
usadas para dar suporte a espécies vegetais caducifólias,
que perdem as folhas no inverno, propiciando maior entrada da radiação
solar, e estão com folhas no verão, criando um ambiente
sombreado. O teto possui forro duplo para manter o calor no inverno,
com circulação de ar para auxiliar o resfriamento do telhado
no verão.
A proposta também inclui soluções simples, como
a utilização de fogão a lenha para cozinhar e ao
mesmo tempo aquecer o ambiente e água em dias frios. Além
de buscarem a redução no consumo de energia, estes princípios
colaboram com a melhoria da qualidade da habitação de
interesse social. “As casas populares normais são incoerentes:
elas são um forno no verão e uma geladeira no inverno.
Isso é desumano”, avalia o professor Sattler.
O referencial teórico usado na concepção do projeto
também leva em conta
conceitos da permacultura, que busca uma integração harmoniosa
e sustentável entre o ambiente, as pessoas e suas necessidades
de habitação, alimentação e energia, entre
outras.
Dentro desse princípio, o material escolhido foi o tijolo de
cerâmica, produzido em praticamente todo o Rio Grande do Sul.
“O ideal em uma construção que busca ser sustentável
é a utilização de materiais locais, que não
exijam grandes distâncias de transporte e que gerem empregos e
renda no local na construção”, explica o professor
Sattler. Todas as esquadrias de portas e janelas são de eucalipto,
tratadas com produtos não tóxicos. Foi utilizado para
prevenir o ataque de cupins um produto a base de óleos essenciais
extraídos de plantas da Amazônia.
Para proteção contra a umidade, foi usado óleo
de linhaça cozido, cuja eficiência está sendo estudada
em uma tese de doutorado em realização no NORIE. Na linha
de reaproveitamento de materiais, dentro do forro há uma lâmina
refletora alumínio, que recicla chapas de alumínio de
fotolitos e funciona como uma barreira à passagem de calor.
O protótipo está sendo equipado com coletores de água
da chuva para utilização no vaso sanitário e irrigação
do jardim. Um sistema de tratamento de esgotos também está
em implantação no próprio local.
O sistema de esgotos separa as águas negras (do vaso sanitário)
das águas cinzas (as demais águas residuárias geradas
na construção). Cada uma delas é tratada separadamente.
As águas negras, por exemplo, passam por um digestor e depois
por um filtro anaeróbico. Então se juntam às águas
cinzas, que passaram por uma caixa de gordura. Em seguida as águas
são conduzidas a um canteiro, composto por um filtro de solo
e agregados miúdos, sobre o qual são cultivadas plantas.
As raízes dessas plantas buscam os nutrientes necessários
à vegetação no afluente ao canteiro e, com isso,
depuram ainda mais as águas originalmente negras. Finalmente,
o efluente do canteiro é conduzido a um pequeno espelho d´água,
onde plantas aquáticas fazem o ´polimento´ final
das águas residuárias.
Ainda estão por ser executadas as instalações de
água quente (do coletor solar e as ligadas ao fogão à
lenha) e fria, com os respectivos equipamentos (chuveiro, bacia sanitária,
tanque de lavar roupa, pia da cozinha). O pé-direito elevado
do protótipo também permitirá a construção
de dois ´mezaninos´, um na sala e outro no dormitório
voltado para Norte, cada um com aproximadamente oito metros quadrados.
Estas extensões serão iluminadas e ventiladas pelas janelas
superiores, existentes na fachada Norte do protótipo.
O coordenador do projeto, professor Miguel Sattler, acredita que os
componentes da casa criam um novo paradigma para a habitação
popular. Construído com recursos da Caixa Econômica Federal
e da Finep, o protótipo iniciou com recursos de R$ 20 mil, boa
parte dos quais foram investidos em mão-de-obra qualificada –
de modo a não comprometer a função demonstrativa
do protótipo. Em materiais foram gastos aproximadamente R$ 8.650,00,
e outros investimentos continuam sendo feitos. No entanto, este valor
possibilita a construção de uma casa de 46 metros quadrados
(o que representa aproximandamente ¼ do CUB, para materiais).
“Está
se proporcionando, a este custo, muito mais do que uma casa. Constrói-se
uma habitação mais digna, que abrigue com conforto uma
família de quatro ou cinco pessoas, reduzindo significativamente
os impactos sobre o meio ambiente”, ressalta Sattler. A continuidade
do projeto contempla o monitoramento do desempenho térmico do
protótipo (projeto financiado pelo CNPq, em fase de conclusão),
o desenvolvimento de pesquisas sobre coletores solares para aquecimento
d´água, de custo acessível à populações
de baixa renda, acoplados a fogões à lenha e a implantação
do paisagismo produtivo nas áreas junto à edificação
.
Todos estes projetos estão sendo desenvolvidos como parte das
atividades de dissertações, ou de disciplinas associadas
a temas de sustentabilidade, de alunos do Programa de Pós-Graduação
em Engenharia Civil da UFRGS. Entre as pesquisas de mestrado já
concluídas estão dissertações relacionadas
à determinação do impacto ambiental de materiais
cerâmicos, utilizados para as paredes e cobertura; à captação
e uso da água de chuva; ao uso de esquadrias de madeiras de reflorestamento,
ao uso de sistemas de tratamento de esgotos alternativo proposto para
a construção.
Segundo o professor, a adoção de pelo menos alguns dos
princípios que estão sendo demonstrados no protótipo
já ajudaria na melhoria da habitação popular. “Não
só da habitação em si, mas na conscientização
sobre a necessidade de preservação do meio ambiente, no
estímulo à produção local de alimentos,
a projetos cooperativos de construção apoiados por sistemas
de autogestão ou autoconstrução e na geração
de empregos nos locais de produção das construções”,
ressalta. Isso porque os projetos do Núcleo Orientado à
Inovação na Edificação (Norie) não
se resumem à habitação.
Em outro trabalho desenvolvido pelo Núcleo e também integrado
ao Programa Habitare, em que foi planejado um Centro Experimental de
Tecnologias Habitacionais Sustentáveis (CETHS), por exemplo,
todo o sistema de infra-estrutura (tratamento de esgotos, vias de circulação,
paisagismo produtivo, gestão da água e de resíduos,
etc.) foi contemplado para englobar as dimensões sociais, ambientais,
culturais e econômicas.
Fonte: http://habitare.infohab.org.br
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