
Um
dos maiores empreendedores de conjuntos habitacionais para a população
de baixa renda no Brasil, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional
e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), ainda usa critérios
de projeto em que prevalecem a repetição e a padronização.
Em geral, faltam paisagismo e áreas de lazer. Conjuntos habitacionais
novos foram inaugurados com um nível mais alto de infra-estrutura
urbana mas,em geral, ainda apresentam falhas nos conceitos de implantação.
O diagnóstico da habitação popular foi realizado
a partir de estudos de Avaliação Pós-Ocupaçãodesenvolvidos
por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
As
avaliações aconteceram em cinco áreas habitacionais
da região de Campinas, São Paulo. A pesquisa de campo
deve servir como ponto de partida para estabelecer um método
para o desenvolvimento do projeto de novos conjuntos e para sua avaliação.
A meta do estudo é a criação de diretrizes que
possibilitem o aumento da qualidade de vida e qualidade global dos empreendimentos
habitacionais voltados à habitação de interesse
social. A pesquisa conta com recursos do Programa de Tecnologia de Habitação
(Habitare), financiado pela FINEP, Caixa Econômica Federal e CNPq.
“O método que estamos nos propondo a desenvolver deverá
permitir ao projetista antever e desencadear as discussões sobre
a qualidade dos projetos residenciais voltados à habitação
popular”, explica a professora Doris CCK Kowaltowski, do Departamento
de Construção e Arquitetura da Faculdade de Engenharia
Civil, Arquitetura e Urbanismo da Unicamp. A professora é coordenadora
do projeto ´Análise de parâmetros de implantação
de conjuntos habitacionais de interesse social – ênfase
nos aspectos de sustentabilidade ambiental e de qualidade de vida´,
integrado ao Programa Habitare. No estudo, a qualidade do projeto de
conjuntos habitacionais é abordada sob dois aspectos: o impacto
físico-ambiental e a qualidade de vida que estes conjuntos habitacionais
podem oferecer a seus moradores.
“Tanto
os indicadores de sustentabilidade quanto os indicadores de qualidade
de vida deveriam permear os métodos de desenvolvimento de projeto”,
reforça a professora. Segundo ela, a pesquisa que coordena se
baseia na hipótese de que, já no estágio de implantação,
um grande número de fatores é definido e pode interferir
tanto na qualidade de vida dos futuros usuários quanto no ambiente
em que será localizado o empreendimento.
As avaliações pós-ocupação mostram
que na prática a qualidade dos empreendimentos voltados à
habitação popular é medida por sua “eficiência
econômica”. Essa eficiência se traduz pelo objetivo
de construir o maior número de moradias com o menor custo, que
representa uma visão segmentada do problema.
De acordo com o estudo, entre os fatores relacionados à sustentabilidade
de conjuntos habitacionais estão a extensão da área
de intervenção, a relação entre área
livre e edificada e a proporção de área impermeável.
Também
estão relacionadas à sustentabilidade a orientação
e a distância entre as edificações, a relação
largura e comprimento dos prédios, a área de vegetação,
a modificação da topografia original e as linhas de drenagem
natural. Os parâmetros de qualidade de vida relacionam-se à
psicologia ambiental, que trata da percepção humana do
ambiente e dos sentimentos que estes espaços provocam nos moradores.
Estes sentimentos dependem, por exemplo, da sensação de
segurança, da privacidade, da individualização
do espaço e da percepção da densidade do conjunto
habitacional.
Os resultados preliminares da pesquisa de campo demonstram alguns dados
importantes. A população declara-se em geral muito satisfeita
com as moradias dos conjuntos habitacionais, mesmo apontando problemas
de conforto ambiental. A mesma população não percebe
falhas na escala urbana dos conjuntos e, em alguns casos, indica que
a CDHU poderá adensar mais os projetos para oferecer um maior
número de moradias para as famílias carentes.
De
acordo com a equipe, as análises apontam para a necessidade de
três ações na implantação de conjuntos
habitacionais com qualidade. A primeira seria uma mudança nas
políticas habitacionais, buscando um aumento de qualidade e humanização
dos conjuntos habitacionais de interesse social, com base nas tendências
mundiais de projetos habitacionais. Em segundo lugar, o grupo recomenda
o uso de metodologias de projeto com inserção de referências
internacionais em habitação e sustentabilidade. Também
aponta para a necessidade de programas pós-ocupação
em conjuntos habitacionais, que envolvam a população na
busca da qualidade de vida e na introdução de melhorias
no novo habitat.
A
pesquisa financiada pelo Programa Habitare permitiu o levantamento de
alguns dos principais trabalhos internacionais sobre indicadores ambientais,
sustentabilidade e desenvolvimento sustentável. O cruzamento
destas informações com os dados obtidos nos estudos de
campo na região de Campinas já permitiu a organização
de uma lista preliminar de indicadores de sustentabilidade para conjuntos
habitacionais de interesse social. A idéia é que esta
lista seja refinada e validada nos estudos ainda em andamento.
Fonte: http://habitare.infohab.org.br
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