
Introdução
Todos nós, com certeza, temos uma idéia mais ou menos
clara do que seja uma estrutura. Muitos sabem projetar e até
dimensionar, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo conhecimento
técnico e científico vigente, mas poucos se preocupam
com um estudo mais profundo da relação harmoniosa que
deve existir entre os espaços arquitetônicos e as estruturas
resultantes das necessidades estáticas da estabilização
desses espaços..
As
idéias que exponho aqui não são resultado apenas
de meu trabalho ao longo desses 33 anos de atividade como engenheiro
de estruturas e professor de sistemas estruturais em escolas de arquitetura,
são idéias também compartilhadas por outros autores.
Quero deixar claro que minha postura não é de fornecer
respostas prontas, mas de colocar questões que considero relevantes
e que muitas vezes passam despercebidas na articulação
entre projetos de arquitetura e estrutura.
Pretendo
nesta série de artigos colocar para discussão algumas
questões que envolvem o processo de criação do
projeto de arquitetura e de estrutura. São questões que
por se apresentarem aparentemente menores passam despercebidas. Acredito
que se bem observadas podem levar a uma melhor conscientização
e controle do processo de criação, beneficiando o resultado
final: o projeto da edificação.
Como conceituar a estrutura
Em
primeiro lugar é preciso libertar-se da idéia pré-concebida
de estrutura como esqueleto que sustenta a edificação.
Esta idéia relega a estrutura à única e, porque
não dizer, ingrata função de um mal necessário,
algo desprovido de criatividade e, com certa ponta de preconceito, ser
colocada como "coisa de engenheiro". O conceito de estrutura
é bem mais amplo e extrapola os limites das áreas da engenharia
e arquitetura. A palavra estrutura é encontrada em todas as áreas
do conhecimento humano.
Quem não ouviu falar em estrutura econômica, estrutura
musical, estrutura viária, entre outras. Em todas essas situações
estrutura representa a mesma coisa, ou seja: um conjunto de elementos
que se interrelacionam para desempenhar uma função. Não
será a estrutura musical um conjunto de elementos - notas musicais
- que se interrelacionam - linha melódica - para desempenhar
uma função - criar sons ? Não é a estrutura
viária um conjunto de elementos - ruas avenidas e praças
- que se interrelacionam - rua chegando em rua, rua chegando em praça
- para desempenhar uma função - o convívio social
? Com as estruturas dos edifícios também é assim:
um conjunto de elementos - lajes, vigas e pilares - que se interrelacionam
- lajes apoiando em vigas, vigas em pilares - para desempenhar uma função
- criar um espaço para abrigar coisas ou pessoas. Essa aplicação
do conceito de estrutura às mais diversas atividades humanas
mostra que o conceito de estrutura é universal e não se
restringe a "coisa de engenheiro".
Estrutura
está em tudo que nos rodeia, nas plantas, no ar, nas pessoas
e nos edifícios, entre outras coisas. Nas atitudes mais corriqueiras,
como a de se colocar um lápis sobre a mesa, estar-se-á,
mesmo que inconscientemente, aplicando princípios físicos
que envolvem a questão do equilíbrio.
O próprio ser humano, em sua mais tenra idade, sem qualquer conhecimento
sistematizado do comportamento das estruturas, "coloca de pé"
uma das mais complexas estruturas - o corpo humano. A questão
de equilíbrio, princípio fundamental das estruturas, é
inerente não só ao ser humano como a toda natureza.
E é principalmente na natureza que se encontra uma fonte inesgotável
de inspiração estrutural e arquitetônica. A natureza
procura resolver seus problemas estruturais e biológicos da forma
mais bonita e econômica. Um galho de árvore revela os mesmos
princípios físicos que se encontram em uma viga em balanço.
Uma folha de palmeira ensina como dar resistência a cascas finas
através de dobraduras, e assim por diante. Não se quer
defender aqui que se deva sair por aí projetando edifícios
com a forma de uma flor ou de um pássaro, mas que se procure
deter um pouco em observar a natureza e aprender dela os princípios
que possam ajudar a projetar edifícios que sendo racionais e
econômicos não deixem de ser belos.
As
funções da estrutura nas edificações
À
primeira vista pode parecer que a única e exclusiva função
da estrutura em uma edificação é o de mantê-la
estável. Ninguém constrói uma obra só para
resistir, pois, senão, seria apenas um modelo de ensaio. Uma
obra se constrói para muitas funções, como abrigar
pessoas e objetos, agradar os sentidos de quem a vivencia e assim por
diante. A função estática, a de esqueleto de sustentação
é sempre percebida e valorizada, pois sem estrutura o edifício
não se mantém. Outros aspectos, como a Influência
nos cinco sentidos humanos, ou seja, no bem ou mal estar psicológico
provocado pela opção por determinado material e sistema
estrutural, são, freqüentemente, relegados a um segundo
ou terceiro plano, quando não, esquecidos totalmente.
Por
que alguém escolheria a madeira como opção de material
para sua moradia? Seria pelo aspecto do material? Ou pela sua textura,
cor, cheiro ou reminiscências evocadas? Provavelmente por algum
ou mesmo por todos esses fatores. O que poderá provocar no dia-dia
de uma pessoa o contato constante com vigas e pilares metálicos?
Uma cobertura em abóbada sobre a cabeça de alguém,
que prazeres ou tensões psicológicas irá provocar?
A
colocação de poucos pilares, em locais muito amplos, pode
tornar o ambiente desagradável. Pesquisas mostram que em espaços
amplos as pessoas tendem a se reunir em torno de pilares e que a escassez
desses pode se tornar incômoda. Esses aspectos da estrutura na
composição dos espaços são poucos pensados
na instante da concepção do projeto.
"O que é lógico e racional em estrutura não
é necessariamente humanamente desejável" (Forrest
Wilson). Normalmente o fator econômico, que pode ser traduzido
em números é que define a escolha de um material ou sistema
estrutural; mas, ainda assim, a relação do custo de uma
opção e o benefício obtido dependerá sempre
de argumentos extremamente subjetivos.
A
opção por uma solução estrutural também
deveria envolver a consciência de três instantes na história
da obra: o seu passado, o seu presente e o seu futuro. O passado de
uma obra compreende a escolha do material, a solução estrutural,
sua construção e as relações dessas questões
com os aspectos energéticos, ambientais e ecológicos.
O presente da obra refere-se ao seu uso cotidiano, com os efeitos nos
sentidos humanos, aqui já comentados. O futuro da obra refere-se
à sua manutenção.
De que vale uma solução de projeto que empregue um material
e um sistema estrutural, corretamente escolhidos, quanto os aspectos
de obtenção, execução, da agradável
solução estática, do conforto dos espaços
criados, se sua manutenção se tornar tão problemática
que todas as vantagens prévias perdem significado? Esse trinômio,
obtenção, uso e manutenção, ou seja, passado,
presente e futuro da obra, é sem dúvida, difícil
de solucionar e nem se sabe se sempre tem solução, mas
o importante é que ele seja levado em conta na hora da concepção
do projeto. A questão do presente da obra, ou seja, sua ocupação,
tem sido, freqüentemente, foco de preocupação; a
avaliação pós-ocupação é uma
disciplina que já faz parte de cursos de graduação
e pós-graduação de algumas universidades brasileiras
e estrangeiras.
Quanto ao passado da obra, algumas poucas experiências têm
sido feitas na avaliação de custos energéticos
e ecológicos de soluções estruturais e construtivas,
mas ainda sem uma sistematização adequada. O mesmo ocorre
quanto á questão do futuro da obra, ou seja, de sua manutenção,
principalmente a preventiva.
Mas todas essas questões ficam sem sentido e se não for
relacionada à gênesis do projeto estrutural e arquitetônico,
e essa será a questão levantada na segunda parte desta
série de artigos.
Autor: Prof. Dr. Yopanan C. P. Rebello
( Palestrante da Ycon Formação Continuada )
Maiores informações sobre cursos e sobre o autor deste
artigo:
www.ycon.com.br
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