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Questões sobre o processo de concepção da arquitetura e estrutura
Autor: Prof. Dr. Yopanan C. P. Rebello


Parte II
A quem cabe conceber a estrutura ?

Quem não se lembra da famosa pergunta, até hoje sem uma definitiva solução: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Analogamente a esta questão, até certo ponto prosaica, pode-se perguntar: quem nasceu primeiro, a arquitetura ou a estrutura?
Na primeira parte desta série, já foi comentado que a estrutura não é só o esqueleto que suporta uma forma; a estrutura é, também, parte integrante e inseparável da forma. É impossível imaginar-se uma forma sem estrutura como, também, uma estrutura sem forma.

É muito comum entender-se a arquitetura como a criadora das formas, como se essas pudessem acontecer isoladamente e independente da estrutura, do material do qual é produzida e dos processos de produção. Na verdade a criação de uma forma implica na criação de uma estrutura e em conseqüência dos materiais e processos construtivos que permitem materializá-la. A estrutura e a forma, ou a estrutura e a arquitetura são um só objeto, e assim sendo, conceber uma implica em conceber a outra.

Arquitetura e estrutura nascem juntas; aquele que cria a forma é aquele que também cria a estrutura. O ato de desenhar um pequeno espaço de um edifício compromete o seu autor com a solução da estrutura. Em outras palavras quem concebe a arquitetura concebe a estrutura. A história tem mostrado que sempre coube ao criador da arquitetura a responsabilidade pela concepção estrutural, a execução da edificação e até mesmo da sua decoração. Logo é bastante natural que continue a cargo de quem concebe a arquitetura a responsabilidade pela concepção estrutural. Quando falo em criador da arquitetura não me refiro apenas ao arquiteto, pois em princípio, nada impede que o engenheiro seja o criador da arquitetura.

A divisão de trabalho entre engenheiros e arquitetos não é natural, é conseqüência de necessidades operacionais criadas artificialmente ao longo da história. Essa divisão, algumas vezes necessária, provocou a separação de atribuições, criando a falsa idéia de que arquitetura é coisa apenas de arquiteto e estrutura apenas de engenheiro. Não importa se a arquitetura seja criada por arquiteto ou engenheiro, o que importa é se ter a consciência de que quem cria a arquitetura cria, também, a estrutura.

O que acontece é que nem sempre o criador da arquitetura tem consciência de que no seu ato criador dos espaços está intrínseco o ato criador da estrutura. Muitas vezes pode ocorrer que, devido à deturpação provocada pela divisão de trabalho, o arquiteto se negue a se preocupar com a estrutura, mal sabendo que, quer ele queira, quer não, ao criar a arquitetura, ali à sua frente está a estrutura, também criada por ele.

Se é o criador da arquitetura, mais comumente o arquiteto, que concebe a estrutura, qual seria, então, o papel do engenheiro de estrutura nesse processo? Ao engenheiro cabe a não menos importante e criativa função de materializar a estrutura, torná-la estável e de fácil execução, com a melhor relação custo-benefício. Sem dúvida uma batalha árdua que exige conhecimento sim, mas, também, muita sensibilidade. Infelizmente, muitos profissionais engenheiros, por sua vez, esquecem que um bom projeto de estrutura é, também, resultado de uma aguçada sensibilidade e da mesma inspiração que orienta os arquitetos.

O engenheiro espanhol Eduardo Torroja, autor de estruturas notáveis, diz, em seu livro Razon y ser de los typos estructurales: "o nascimento de um conjunto estrutural, resultado de um processo criador, fusão da técnica com a arte, do engenho com o estudo, da imaginação com a sensibilidade, escapa do puro domínio da lógica para entrar nas secretas fronteiras da inspiração".

Qual a melhor solução estrutural ?

Para melhor lustrar essa discussão imagine-se a seguinte analogia: Suponha que se queira executar uma estrada que ligue uma localidade A a uma localidade B. Qual o melhor caminho para ligar esses dois pontos? Uma resposta mais imediata é a execução da linha reta, pois a reta é o caminho mais curto entre dois pontos.

Mas, coloque-se mais um dado à questão: suponha-se que a estrada tenha como função principal ser turística e que deva passar por lugares interessantes do ponto de vista histórico e paisagístico, locais que podem estar bastante afastados da linha reta. Neste caso, o melhor caminho entre as duas localidades deixa de ser uma reta.

O melhor é sempre relativo. Melhor em relação a que? Nas estruturas ocorre a mesma coisa. Uma solução poderá ser mais econômica no que se refere ao consumo de materiais, mas por outro lado pode resultar em aspecto pouco agradável, ou poderá demorar para ser executada, ou até mesmo não atingir a qualidade dos espaços planejados.

Para orientar as possibilidades de escolha é necessário estabelecer uma hierarquia de quesitos que devam ser preenchidos pela solução estrutural. Por exemplo, pode-se desejar que a estrutura seja em primeiro lugar a mais leve, em segundo lugar a mais econômica, em terceiro a mais bonita e assim por diante. Essa ordem pode ser totalmente outra, dependendo do contexto econômico, social, político ou histórico em que a obra se coloca.
O que se tem de perseguir é que a distância entre os quesitos estabelecidos seja a menor possível. É nisto que se encontra o grande desafio; por exemplo, é boa uma estrutura que seja a mais econômica, mas também bastante bonita (talvez não a mais bonita,) com um prazo de execução bastante razoável, e assim por diante. O que não tem sentido é privilegiar um único requisito em detrimento dos demais. Infelizmente o único critério em que normalmente os empreendedores se baseiam é no econômico, pois o valor econômico é o mais fácil e objetivo de se comparar.

É bom ter em mente que a melhor solução não é necessariamente a mais barata. O custo de uma estrutura não deve ser parâmetro para classifica-la como melhor, mas deve ser mais um motivo para se chegar a um bom projeto.

Nem sempre se pode afirmar qual a melhor solução, mas, sem dúvida, pode-se afirmar que a pior solução é aquela que apresenta o maior desencontro entre os objetivos do projeto de arquitetura e os objetivos do projeto de estrutura. Esse desencontro, infelizmente, não é raro e ocorre com mais freqüência do que seria desejável. Um dos motivos mais comuns é a desinformação que um profissional de uma área tem em relação à área do outro. Nos arquitetos pode se encontrar a falta de conhecimento ou interesse sobre questões técnicas.

Nos engenheiros existe uma grande desinformação a respeito das preocupações da arquitetura. Para o engenheiro falta o conhecimento de um repertório mais amplo de soluções arquitetônicas e suas respostas estruturais e que possam leva-lo a pensar em soluções estruturais mais interessantes. Falta a eles conhecerem os arquitetos notáveis e suas obras, principalmente aquelas em que a estrutura é destaque. Essas questões são os principais entraves para o encontro e entendimento entre essas duas áreas, que na verdade são uma única.

Os desencontros são, por si só, um grande fator de perda de qualidade das soluções, não só estruturais como arquitetônicas. Uma melhor troca de informações entre engenheiros e arquitetos não só é desejável como necessária para que se produzam soluções mais criativas em ambas as áreas.

É claro que a busca por soluções originais e inovadoras não é o objetivo principal dos projetos, mesmo porque ser criativo não é necessariamente ser inédito: "Nenhuma solução é tão original que não tenha um precedente parecido" ( E. Torroja). A criação do novo passa, também, pela releitura do existente, vendo-o com novos olhos, sob novas perspectivas.

Para isso o conhecimento profundo das soluções utilizadas em projetos semelhantes ao que se propõe e já realizadas por outros, é de capital importância. Deve-se ter o bom senso de se saber a hora em que vale a pena empregar tempo e esforço na busca de soluções que sejam de alguma forma totalmente inovadoras.

Por outro lado, si se pretende criar algo novo, deve-se ter em mente que se irá enfrentar uma árdua batalha contra o medo, a inércia e o comodismo daqueles que temem o novo. Para desestimular a criatividade, inimigos do novo usam os mais estapafúrdios argumentos; dizem sempre que a nova proposta é impossível, pois não está registrada na literatura especializada, ou ainda, que a proposta não atende as normas vigentes, e assim por diante. É indiscutível a necessidade de respeito às Normas, mas deve se ter o bom senso de avaliar quando elas merecem ou não esse respeito. "As Normas existem para obediência dos tolos e orientação dos sábios". (David Olgivy).

Os dois profissionais, engenheiro e arquiteto, deveriam conhecer e respeitar a profissão do outro, pois são companheiros no mesmo objetivo: a edificação executada. É de se prever que na situação vigente esse companheirismo não seja assim tão harmonioso. É essa relação, importantíssima para o bom resultado do projeto, que será posta em questão na terceira parte deste artigo.

Autor: Prof. Dr. Yopanan C. P. Rebello
( Palestrante da Ycon Formação Continuada )
Maiores informações sobre cursos e sobre o autor deste artigo:

www.ycon.com.br

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