
Parte
II
A
quem cabe conceber a estrutura ?
Quem não se lembra da famosa pergunta, até hoje sem uma
definitiva solução: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Analogamente a esta questão, até certo ponto prosaica,
pode-se perguntar: quem nasceu primeiro, a arquitetura ou a estrutura?
Na primeira parte desta série, já foi comentado que a
estrutura não é só o esqueleto que suporta uma
forma; a estrutura é, também, parte integrante e inseparável
da forma. É impossível imaginar-se uma forma sem estrutura
como, também, uma estrutura sem forma.
É muito comum entender-se a arquitetura como a criadora das formas,
como se essas pudessem acontecer isoladamente e independente da estrutura,
do material do qual é produzida e dos processos de produção.
Na verdade a criação de uma forma implica na criação
de uma estrutura e em conseqüência dos materiais e processos
construtivos que permitem materializá-la. A estrutura e a forma,
ou a estrutura e a arquitetura são um só objeto, e assim
sendo, conceber uma implica em conceber a outra.
Arquitetura e estrutura nascem juntas; aquele que cria a forma é
aquele que também cria a estrutura. O ato de desenhar um pequeno
espaço de um edifício compromete o seu autor com a solução
da estrutura. Em outras palavras quem concebe a arquitetura concebe
a estrutura. A história tem mostrado que sempre coube ao criador
da arquitetura a responsabilidade pela concepção estrutural,
a execução da edificação e até mesmo
da sua decoração. Logo é bastante natural que continue
a cargo de quem concebe a arquitetura a responsabilidade pela concepção
estrutural. Quando falo em criador da arquitetura não me refiro
apenas ao arquiteto, pois em princípio, nada impede que o engenheiro
seja o criador da arquitetura.
A divisão de trabalho entre engenheiros e arquitetos não
é natural, é conseqüência de necessidades operacionais
criadas artificialmente ao longo da história. Essa divisão,
algumas vezes necessária, provocou a separação
de atribuições, criando a falsa idéia de que arquitetura
é coisa apenas de arquiteto e estrutura apenas de engenheiro.
Não importa se a arquitetura seja criada por arquiteto ou engenheiro,
o que importa é se ter a consciência de que quem cria a
arquitetura cria, também, a estrutura.
O que acontece é que nem sempre o criador da arquitetura tem
consciência de que no seu ato criador dos espaços está
intrínseco o ato criador da estrutura. Muitas vezes pode ocorrer
que, devido à deturpação provocada pela divisão
de trabalho, o arquiteto se negue a se preocupar com a estrutura, mal
sabendo que, quer ele queira, quer não, ao criar a arquitetura,
ali à sua frente está a estrutura, também criada
por ele.
Se
é o criador da arquitetura, mais comumente o arquiteto, que concebe
a estrutura, qual seria, então, o papel do engenheiro de estrutura
nesse processo? Ao engenheiro cabe a não menos importante e criativa
função de materializar a estrutura, torná-la estável
e de fácil execução, com a melhor relação
custo-benefício. Sem dúvida uma batalha árdua que
exige conhecimento sim, mas, também, muita sensibilidade. Infelizmente,
muitos profissionais engenheiros, por sua vez, esquecem que um bom projeto
de estrutura é, também, resultado de uma aguçada
sensibilidade e da mesma inspiração que orienta os arquitetos.
O
engenheiro espanhol Eduardo Torroja, autor de estruturas notáveis,
diz, em seu livro Razon y ser de los typos estructurales: "o nascimento
de um conjunto estrutural, resultado de um processo criador, fusão
da técnica com a arte, do engenho com o estudo, da imaginação
com a sensibilidade, escapa do puro domínio da lógica
para entrar nas secretas fronteiras da inspiração".
Qual
a melhor solução estrutural ?
Para
melhor lustrar essa discussão imagine-se a seguinte analogia:
Suponha que se queira executar uma estrada que ligue uma localidade
A a uma localidade B. Qual o melhor caminho para ligar esses dois pontos?
Uma resposta mais imediata é a execução da linha
reta, pois a reta é o caminho mais curto entre dois pontos.
Mas, coloque-se mais um dado à questão: suponha-se que
a estrada tenha como função principal ser turística
e que deva passar por lugares interessantes do ponto de vista histórico
e paisagístico, locais que podem estar bastante afastados da
linha reta. Neste caso, o melhor caminho entre as duas localidades deixa
de ser uma reta.
O melhor é sempre relativo. Melhor em relação a
que? Nas estruturas ocorre a mesma coisa. Uma solução
poderá ser mais econômica no que se refere ao consumo de
materiais, mas por outro lado pode resultar em aspecto pouco agradável,
ou poderá demorar para ser executada, ou até mesmo não
atingir a qualidade dos espaços planejados.
Para
orientar as possibilidades de escolha é necessário estabelecer
uma hierarquia de quesitos que devam ser preenchidos pela solução
estrutural. Por exemplo, pode-se desejar que a estrutura seja em primeiro
lugar a mais leve, em segundo lugar a mais econômica, em terceiro
a mais bonita e assim por diante. Essa ordem pode ser totalmente outra,
dependendo do contexto econômico, social, político ou histórico
em que a obra se coloca.
O que se tem de perseguir é que a distância entre os quesitos
estabelecidos seja a menor possível. É nisto que se encontra
o grande desafio; por exemplo, é boa uma estrutura que seja a
mais econômica, mas também bastante bonita (talvez não
a mais bonita,) com um prazo de execução bastante razoável,
e assim por diante. O que não tem sentido é privilegiar
um único requisito em detrimento dos demais. Infelizmente o único
critério em que normalmente os empreendedores se baseiam é
no econômico, pois o valor econômico é o mais fácil
e objetivo de se comparar.
É bom ter em mente que a melhor solução não
é necessariamente a mais barata. O custo de uma estrutura não
deve ser parâmetro para classifica-la como melhor, mas deve ser
mais um motivo para se chegar a um bom projeto.
Nem
sempre se pode afirmar qual a melhor solução, mas, sem
dúvida, pode-se afirmar que a pior solução é
aquela que apresenta o maior desencontro entre os objetivos do projeto
de arquitetura e os objetivos do projeto de estrutura. Esse desencontro,
infelizmente, não é raro e ocorre com mais freqüência
do que seria desejável. Um dos motivos mais comuns é a
desinformação que um profissional de uma área tem
em relação à área do outro. Nos arquitetos
pode se encontrar a falta de conhecimento ou interesse sobre questões
técnicas.
Nos
engenheiros existe uma grande desinformação a respeito
das preocupações da arquitetura. Para o engenheiro falta
o conhecimento de um repertório mais amplo de soluções
arquitetônicas e suas respostas estruturais e que possam leva-lo
a pensar em soluções estruturais mais interessantes. Falta
a eles conhecerem os arquitetos notáveis e suas obras, principalmente
aquelas em que a estrutura é destaque. Essas questões
são os principais entraves para o encontro e entendimento entre
essas duas áreas, que na verdade são uma única.
Os
desencontros são, por si só, um grande fator de perda
de qualidade das soluções, não só estruturais
como arquitetônicas. Uma melhor troca de informações
entre engenheiros e arquitetos não só é desejável
como necessária para que se produzam soluções mais
criativas em ambas as áreas.
É claro que a busca por soluções originais e inovadoras
não é o objetivo principal dos projetos, mesmo porque
ser criativo não é necessariamente ser inédito:
"Nenhuma solução é tão original que
não tenha um precedente parecido" ( E. Torroja). A criação
do novo passa, também, pela releitura do existente, vendo-o com
novos olhos, sob novas perspectivas.
Para
isso o conhecimento profundo das soluções utilizadas em
projetos semelhantes ao que se propõe e já realizadas
por outros, é de capital importância. Deve-se ter o bom
senso de se saber a hora em que vale a pena empregar tempo e esforço
na busca de soluções que sejam de alguma forma totalmente
inovadoras.
Por
outro lado, si se pretende criar algo novo, deve-se ter em mente que
se irá enfrentar uma árdua batalha contra o medo, a inércia
e o comodismo daqueles que temem o novo. Para desestimular a criatividade,
inimigos do novo usam os mais estapafúrdios argumentos; dizem
sempre que a nova proposta é impossível, pois não
está registrada na literatura especializada, ou ainda, que a
proposta não atende as normas vigentes, e assim por diante. É
indiscutível a necessidade de respeito às Normas, mas
deve se ter o bom senso de avaliar quando elas merecem ou não
esse respeito. "As Normas existem para obediência dos tolos
e orientação dos sábios". (David Olgivy).
Os
dois profissionais, engenheiro e arquiteto, deveriam conhecer e respeitar
a profissão do outro, pois são companheiros no mesmo objetivo:
a edificação executada. É de se prever que na situação
vigente esse companheirismo não seja assim tão harmonioso.
É essa relação, importantíssima para o bom
resultado do projeto, que será posta em questão na terceira
parte deste artigo.
Autor: Prof. Dr. Yopanan C. P. Rebello
( Palestrante da Ycon Formação Continuada )
Maiores informações sobre cursos e sobre o autor deste
artigo:
www.ycon.com.br
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