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Questões sobre o processo de concepção da arquitetura e estrutura
Autor: Prof. Dr. Yopanan C. P. Rebello



Parte III

Relação entre arquitetos e engenheiros de estruturas

O projetador da estrutura (o engenheiro) quando chamado pelo projetador da forma (o arquiteto) para juntos desenvolverem um projeto, deve ter com este, ao mesmo tempo que uma afinidade conceitual, posições de confronto que gerem, nesta contradição, tensões que originem forças capazes de rasgar o véu que encobre a obra criativa. O projeto não é resultado da uniformidade de pensamento, mas sim, de sua unidade. Este processo, aparentemente ambíguo, quando bem aproveitado, leva a uma solução de projeto mais aberta, menos dogmática, que pode gerar uma obra, que em provocando discussão, critica e até polêmica, mostre-se de valor.

No processo de criação do projeto arquitetura-estrutura, o irracional, não tomado no seu sentido pejorativo, deve prevalecer em relação ao racional, para que as idéias fluam com liberdade, para que se crie um processo de simbiose entre o arquiteto e o engenheiro, que leve a soluções não atreladas simplesmente a normas de procedimentos. "O pensamento lógico leva de A a B, a imaginação leva a qualquer lugar" (Albert Einstein).

A discussão conceitual da forma e da estrutura deve ser priorizada para que o modelo matemático seja conseqüência e não causa do projeto. Precisa haver muito cuidado nesta fase, principalmente por parte do engenheiro, para que este não se apegue avidamente a fórmulas matemáticas e restrições normativas que possam tolher de maneira irreparável todo o rico processo de idealização da edificação. Na fase de concepção do projeto é perigoso se apegar ao absolutamente exato. O absolutamente exato é o caminho que tende a seguir o inseguro e autoritário, incapaz de avançar nas idéias.

As necessidades utilitárias da sociedade atual romperam o elo histórico e natural entre a concepção arquitetônica e estrutural; elo que precisa ser refeito o mais rápido possível. Um dos entraves à materialização dessa harmonia natural entre estrutura e arquitetura se deve a que arquitetos e engenheiros, em grande parte, ainda entendem estrutura apenas como o arcabouço que introduzido no espaço arquitetônico dá-lhe sustentação.
Arquitetura e estrutura são pensadas apenas como elementos que se complementam. Não é sem motivo que o projeto de estrutura é convencionalmente chamado de projeto complementar ao de arquitetura. Na verdade não existem dois projetos, mas um único, com ênfases diferentes. A arquitetura com ênfase na coordenação dos espaços e a estrutura com ênfase na coordenação dos elementos sustentáveis

Se a mão dupla de conhecimento entre essas duas áreas tão afins já é difícil de acontecer, imagine o que ocorre quanto ao conhecimento de outras áreas do conhecimento humano. Infelizmente, arquitetos e engenheiros continuam voltados para seus próprios umbigos, dando pouca ou nenhuma atenção ao que se passa em outras áreas do conhecimento.
Por que nossos edifícios são tão pesados? Uma asa de avião, sujeita a intensos esforços dinâmicos, muitas vezes mais complexos que aqueles que ocorrem nas edificações, tem uma leveza surpreendente, coisa que não acontece com um balanço idêntico, em uma edificação. Faltam, em geral, a arquitetos e principalmente engenheiros, o interesse e curiosidade em se apropriar ou pelo menos se informar sobre tecnologias e materiais usados e outras áreas do conhecimento humano. Quando essa apropriação ocorre, o que é raro, ela é mais comum nos projetos de arquitetura, não sendo quase nunca acompanhada nas soluções estruturais

O papel do cálculo estrutural


"Antes e acima de todo cálculo está a idéia, modeladora do material em forma resistente, para cumprir sua missão" (E. Torroja). Não é o cálculo que concebe uma forma, mas sim o esforço idealizador da mente humana. O cálculo existe para comprovar e corrigir o que se intuiu. E, quando aquilo que se intuiu não é comprovado, é porque se intuiu mal. O cálculo é uma ferramenta de inegável importância, mas que deve ser colocada em seu devido lugar.

O cálculo matemático deve ser conseqüência de um modelo físico previamente idealizado. Não há sentido em se aplicar um modelo matemático - o cálculo - a um modelo físico que não lhe corresponda, pois não se chegará a nenhum resultado, ou pior, chegar-se-á a um resultado errado. A escolha do modelo físico que melhor represente o comportamento da estrutura é, por vezes, imediato, por se tratar de uma forma estrutural já bastante conhecida, como uma viga, um pilar, uma treliça e assim por diante. Nestes casos, a aplicação de um modelo matemático é bastante simples e imediata, já que essas formas estruturais já foram muito estudadas. Em estruturas complexas e inovadoras pode-se ter dois caminhos: estuda-las como um conjunto íntegro ou separa-las em partes.

Neste último caso, estudando cada parte isoladamente, podendo aplicar a elas modelos matemáticos mais simples. Por outro lado, esse segundo caminho pode não ser o mais indicado para todas as situações, pois, nem sempre, a simples soma das partes corresponde ao todo. A simples união de partes de um avião como motor, hélices, asas, e tantos outros componentes, não garante, necessariamente, a feitura de um avião. É papel do engenheiro de estruturas, baseado na sua sensibilidade e experiência, saber como dissecar uma estrutura, de modo a poder estuda-la por partes e se aproximar bastante do comportamento do conjunto. E, antes de tudo, saber se é possível ou não a possibilidade de separação em partes.

O ideal seria que sempre se pudesse estudar a estrutura como um todo para conhecer seu verdadeiro comportamento, mas nem sempre é possível, pois, até mesmo, os mais sofisticados métodos de análise numérica são carregados de hipóteses simplificadoras, em que o real conhecimento do comportamento global torna-se impossível. O uso de simplificações e de pressupostos, nem sempre realistas, é sempre feito para que o cálculo possa se tornar digerível, mesmo para as mais poderosas máquinas.

Por isso vale a pena chamar a atenção para o fato de que muitos engenheiros, graças à sua formação bastante acadêmica, acreditam tanto no cálculo como único respaldo ao projeto, que muitas vezes se afastam do que é bom senso e deixam de enxergar a realidade, esquecendo que aquele cálculo em que tanto acreditam é fruto de simplificações, que apesar de necessárias, se afastam da real descrição do fenômeno. Acreditar nos resultados matemáticos, sem uma reflexão, é no mínimo uma postura ingênua.

A análise numérica é feita hoje por meio de computadores pessoais que usam programas bastante sofisticados. Esses programas afastam, e é exatamente esta sua função, o usuário dos processos físicos e matemáticos utilizados. Quando, por qualquer motivo, os dados forem fornecidos inadequadamente, os resultados serão fatalmente falsos. O profissional menos atento pode aceitar esses resultados sem uma análise crítica, cometendo erros grosseiros. Se o resultado esperado não é obtido, de duas uma: ou o modelo físico sobre o qual se aplicou o cálculo não é correto ou os dados foram mal fornecidos.

Para evitar esses enganos perigosos, é importante que se tenha uma previsão dos resultados e de sua ordem de grandeza, pois só assim, a utilização dos equipamentos eletrônicos e seus "softwares" será adequada. Só aquele que se habituou a enxergar a estrutura como algo além dos resultados numéricos poderá adquirir essa capacidade de previsão.

Seria interessante que, para uma melhor evolução do conhecimento estrutural, os engenheiros de estrutura perdessem um pouco a atitude arrogante de que só o conhecimento lógico, cartesiano e matemático é correto e mais humildemente atentassem para outras possibilidades menos ortodoxas.

"Pensar constitui sempre um esforço penoso, e, portanto nos é muito mais cômodo crer simplesmente no bom critério dos que desenvolveram os procedimentos em uso e aplicá-los ao pé da letra, por longos e tediosos que esses métodos sejam, antes de pararmos para pensar por nossa conta" (Félix Candela).

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