
Parte III
Relação entre arquitetos e engenheiros de estruturas
O projetador da estrutura (o engenheiro) quando chamado pelo projetador
da forma (o arquiteto) para juntos desenvolverem um projeto, deve ter
com este, ao mesmo tempo que uma afinidade conceitual, posições
de confronto que gerem, nesta contradição, tensões
que originem forças capazes de rasgar o véu que encobre
a obra criativa. O projeto não é resultado da uniformidade
de pensamento, mas sim, de sua unidade. Este processo, aparentemente
ambíguo, quando bem aproveitado, leva a uma solução
de projeto mais aberta, menos dogmática, que pode gerar uma obra,
que em provocando discussão, critica e até polêmica,
mostre-se de valor.
No processo de criação do projeto arquitetura-estrutura,
o irracional, não tomado no seu sentido pejorativo, deve prevalecer
em relação ao racional, para que as idéias fluam
com liberdade, para que se crie um processo de simbiose entre o arquiteto
e o engenheiro, que leve a soluções não atreladas
simplesmente a normas de procedimentos. "O pensamento lógico
leva de A a B, a imaginação leva a qualquer lugar"
(Albert Einstein).
A discussão conceitual da forma e da estrutura deve ser priorizada
para que o modelo matemático seja conseqüência e não
causa do projeto. Precisa haver muito cuidado nesta fase, principalmente
por parte do engenheiro, para que este não se apegue avidamente
a fórmulas matemáticas e restrições normativas
que possam tolher de maneira irreparável todo o rico processo
de idealização da edificação. Na fase de
concepção do projeto é perigoso se apegar ao absolutamente
exato. O absolutamente exato é o caminho que tende a seguir o
inseguro e autoritário, incapaz de avançar nas idéias.
As necessidades utilitárias da sociedade atual romperam o elo
histórico e natural entre a concepção arquitetônica
e estrutural; elo que precisa ser refeito o mais rápido possível.
Um dos entraves à materialização dessa harmonia
natural entre estrutura e arquitetura se deve a que arquitetos e engenheiros,
em grande parte, ainda entendem estrutura apenas como o arcabouço
que introduzido no espaço arquitetônico dá-lhe sustentação.
Arquitetura e estrutura são pensadas apenas como elementos que
se complementam. Não é sem motivo que o projeto de estrutura
é convencionalmente chamado de projeto complementar ao de arquitetura.
Na verdade não existem dois projetos, mas um único, com
ênfases diferentes. A arquitetura com ênfase na coordenação
dos espaços e a estrutura com ênfase na coordenação
dos elementos sustentáveis
Se a mão dupla de conhecimento entre essas duas áreas
tão afins já é difícil de acontecer, imagine
o que ocorre quanto ao conhecimento de outras áreas do conhecimento
humano. Infelizmente, arquitetos e engenheiros continuam voltados para
seus próprios umbigos, dando pouca ou nenhuma atenção
ao que se passa em outras áreas do conhecimento.
Por que nossos edifícios são tão pesados? Uma asa
de avião, sujeita a intensos esforços dinâmicos,
muitas vezes mais complexos que aqueles que ocorrem nas edificações,
tem uma leveza surpreendente, coisa que não acontece com um balanço
idêntico, em uma edificação. Faltam, em geral, a
arquitetos e principalmente engenheiros, o interesse e curiosidade em
se apropriar ou pelo menos se informar sobre tecnologias e materiais
usados e outras áreas do conhecimento humano. Quando essa apropriação
ocorre, o que é raro, ela é mais comum nos projetos de
arquitetura, não sendo quase nunca acompanhada nas soluções
estruturais
O papel do cálculo estrutural
"Antes e acima de todo cálculo está a idéia,
modeladora do material em forma resistente, para cumprir sua missão"
(E. Torroja). Não é o cálculo que concebe uma forma,
mas sim o esforço idealizador da mente humana. O cálculo
existe para comprovar e corrigir o que se intuiu. E, quando aquilo que
se intuiu não é comprovado, é porque se intuiu
mal. O cálculo é uma ferramenta de inegável importância,
mas que deve ser colocada em seu devido lugar.
O cálculo matemático deve ser conseqüência
de um modelo físico previamente idealizado. Não há
sentido em se aplicar um modelo matemático - o cálculo
- a um modelo físico que não lhe corresponda, pois não
se chegará a nenhum resultado, ou pior, chegar-se-á a
um resultado errado. A escolha do modelo físico que melhor represente
o comportamento da estrutura é, por vezes, imediato, por se tratar
de uma forma estrutural já bastante conhecida, como uma viga,
um pilar, uma treliça e assim por diante. Nestes casos, a aplicação
de um modelo matemático é bastante simples e imediata,
já que essas formas estruturais já foram muito estudadas.
Em estruturas complexas e inovadoras pode-se ter dois caminhos: estuda-las
como um conjunto íntegro ou separa-las em partes.
Neste último caso, estudando cada parte isoladamente, podendo
aplicar a elas modelos matemáticos mais simples. Por outro lado,
esse segundo caminho pode não ser o mais indicado para todas
as situações, pois, nem sempre, a simples soma das partes
corresponde ao todo. A simples união de partes de um avião
como motor, hélices, asas, e tantos outros componentes, não
garante, necessariamente, a feitura de um avião. É papel
do engenheiro de estruturas, baseado na sua sensibilidade e experiência,
saber como dissecar uma estrutura, de modo a poder estuda-la por partes
e se aproximar bastante do comportamento do conjunto. E, antes de tudo,
saber se é possível ou não a possibilidade de separação
em partes.
O ideal seria que sempre se pudesse estudar a estrutura como um todo
para conhecer seu verdadeiro comportamento, mas nem sempre é
possível, pois, até mesmo, os mais sofisticados métodos
de análise numérica são carregados de hipóteses
simplificadoras, em que o real conhecimento do comportamento global
torna-se impossível. O uso de simplificações e
de pressupostos, nem sempre realistas, é sempre feito para que
o cálculo possa se tornar digerível, mesmo para as mais
poderosas máquinas.
Por isso vale a pena chamar a atenção para o fato de que
muitos engenheiros, graças à sua formação
bastante acadêmica, acreditam tanto no cálculo como único
respaldo ao projeto, que muitas vezes se afastam do que é bom
senso e deixam de enxergar a realidade, esquecendo que aquele cálculo
em que tanto acreditam é fruto de simplificações,
que apesar de necessárias, se afastam da real descrição
do fenômeno. Acreditar nos resultados matemáticos, sem
uma reflexão, é no mínimo uma postura ingênua.
A análise numérica é feita hoje por meio de computadores
pessoais que usam programas bastante sofisticados. Esses programas afastam,
e é exatamente esta sua função, o usuário
dos processos físicos e matemáticos utilizados. Quando,
por qualquer motivo, os dados forem fornecidos inadequadamente, os resultados
serão fatalmente falsos. O profissional menos atento pode aceitar
esses resultados sem uma análise crítica, cometendo erros
grosseiros. Se o resultado esperado não é obtido, de duas
uma: ou o modelo físico sobre o qual se aplicou o cálculo
não é correto ou os dados foram mal fornecidos.
Para evitar esses enganos perigosos, é importante que se tenha
uma previsão dos resultados e de sua ordem de grandeza, pois
só assim, a utilização dos equipamentos eletrônicos
e seus "softwares" será adequada. Só aquele
que se habituou a enxergar a estrutura como algo além dos resultados
numéricos poderá adquirir essa capacidade de previsão.
Seria interessante que, para uma melhor evolução do conhecimento
estrutural, os engenheiros de estrutura perdessem um pouco a atitude
arrogante de que só o conhecimento lógico, cartesiano
e matemático é correto e mais humildemente atentassem
para outras possibilidades menos ortodoxas.
"Pensar constitui sempre um esforço penoso, e, portanto
nos é muito mais cômodo crer simplesmente no bom critério
dos que desenvolveram os procedimentos em uso e aplicá-los ao
pé da letra, por longos e tediosos que esses métodos sejam,
antes de pararmos para pensar por nossa conta" (Félix Candela).
voltar |